Viagens longas e trombose: o risco que acompanha quem passa horas sentado

Especialista explica porque ficar parado por muito tempo é perigoso e ensina medidas simples para viajar com segurança

Uma viagem de ônibus até o litoral, um voo internacional, um trajeto de carro que atravessa o país. Em comum, todas essas situações têm um detalhe que costuma passar despercebido: horas seguidas sentado, com as pernas dobradas e quase sem se mexer. Para o sistema circulatório, esse conforto aparente pode ser um risco. A trombose acontece quando se forma um coágulo dentro de um vaso sanguíneo, o que dificulta ou bloqueia a passagem do sangue. Quando ocorre nas veias profundas das pernas, é chamada de trombose venosa profunda (TVP).

O perigo maior é que parte do coágulo se solte e viaje até os pulmões, causando a embolia pulmonar, uma condição grave que pode levar à morte. Estudos científicos apontam que viagens com mais de quatro horas de duração, de avião, carro, ônibus ou trem, podem aumentar de forma significativa a chance de trombose venosa. Em algumas pesquisas, o risco chega a ser cerca de duas vezes maior do que o de quem não viajou.

A explicação está na fisiologia do corpo. As veias das pernas dependem da contração dos músculos da panturrilha para empurrar o sangue de volta ao coração. Quando ficamos muito tempo sentados, esse mecanismo praticamente para, e o sangue circula mais lentamente nos membros inferiores, o que favorece a formação de coágulos. A desidratação, comum em viagens, e a pressão do assento sobre a parte de trás das coxas agravam o quadro.

“A panturrilha funciona como uma segunda bomba para o coração. Quando a pessoa passa horas sem movimentar as pernas, essa bomba deixa de trabalhar e o sangue fica mais lento nas veias. É nesse cenário que o risco de trombose aumenta”, explica Solange Copetti, coordenadora do curso de Fisioterapia da Afya Centro Universitário de Pato Branco.

Segundo ela, o risco não é igual para todos. “Pessoas com histórico pessoal ou familiar de trombose, obesidade, gestantes, mulheres que usam anticoncepcionais ou terapia hormonal, pacientes em recuperação de cirurgia, fumantes e idosos merecem atenção redobrada. Mas qualquer pessoa pode ser afetada, inclusive jovens saudáveis que passam muitas horas sem se movimentar”, afirma a professora.

Prevenção começa no assento

A boa notícia é que boa parte dos cuidados é simples e está ao alcance de todos. Para Solange, o principal é manter a circulação ativa durante o trajeto. “Não é preciso fazer nada complicado. Sempre que possível, levante e caminhe a cada uma ou duas horas. Se isso não for possível, como em um voo ou em um carro, faça exercícios sentado: flexione e estenda os tornozelos, faça círculos com os pés e contraia as panturrilhas. Esses movimentos ajudam o sangue a retornar ao coração”, orienta.

Cuidados para viajar com mais segurança:

  • Movimente os pés e os tornozelos com frequência, mesmo sentado.
  • Levante e caminhe a cada uma ou duas horas, quando possível. Em viagens de carro, programe paradas.
  • Beba água ao longo do trajeto e evite o consumo excessivo de álcool.
  • Use roupas confortáveis e folgadas, sem apertar cintura ou pernas.
  • Evite cruzar as pernas por longos períodos.
  • Pessoas com fatores de risco devem consultar um médico antes de viajar, pois o uso de meias de compressão e outras medidas pode ser indicado.

Sinais de alerta que não devem ser ignorados

A trombose nem sempre dá sinais claros, mas alguns sintomas pedem atenção. Entre eles estão inchaço em uma das pernas, dor ou sensibilidade na panturrilha, vermelhidão e sensação de calor na região. Em caso de embolia pulmonar, podem surgir falta de ar repentina, dor no peito, tosse e batimentos acelerados. “Se houver qualquer um desses sintomas, durante a viagem ou nos dias seguintes, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de um tratamento eficaz”, reforça Solange.

Para a coordenadora do curso de Fisioterapia da Afya de Pato Branco, o Dia Mundial da Trombose é uma oportunidade de levar o tema para além dos consultórios. “Muita gente só descobre que a trombose é um risco real depois que ela acontece. Informar a população sobre a relação entre imobilidade, viagens e saúde vascular é uma forma de prevenção. E a fisioterapia tem papel importante nisso, seja orientando hábitos e exercícios, seja na reabilitação de quem já passou por um episódio”, conclui Solange.

Da assessoria

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